Bóiam farrapos de sombra

Bóiam farrapos de sombra


Bóiam farrapos de sombra Em torno ao que não sei ser.
É todo um céu que se escombra Sem me o deixar entrever.
O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma Nas desregradas negruras Com que o ar se treva torna.
Mas em tudo isto, que faz O universo um ser desfeito,
Guardei, como a minha paz,
A 'sp'rana, que a dor me traz, Apertada contra o peito.

Fernando Pessoa
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Bem, hoje que estou só e posso ver

Bem, hoje que estou só e posso ver


Bem, hoje que estou só e posso ver Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser, Quanto se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me Por não ter procedido bem.
Falhei a tudo, mas sem galhardias, Nada fui, nada ousei e nada fiz,

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Basta Pensar em Sentir

Basta Pensar em Sentir

Basta pensar em sentir Para sentir em pensar. 

Meu coração faz sorrir Meu coração a chorar. 
Depois de parar de andar, Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.

Fernando Pessoa
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Como uma voz de fonte que cessasse

Como uma voz de fonte que cessasse


Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), p'ra além dos meus palmares De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce De música longínqua, asas nos ares, O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...

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As nuvens são sombrias

As nuvens são sombrias

As nuvens são sombrias


As nuvens são sombrias Mas, nos lados do sul, Um bocado do céu
É tristemente azul.
Assim, no pensamento, Sem haver solução,
Há um bocado que lembra Que existe o coração.
E esse bocado é que é A verdade que está A ser beleza eterna Para além do que há. 

Fernando Pessoa
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IV - Cem Sonetos de Amor

IV - Cem Sonetos de Amor

Recordarás aquela quebrada caprichosa de onde os aromas palpitantes treparam, de quando em quando um pássaro vestido com água e lentitude: traje do inverno.
Recordarás dos dons da terra: irascível fragrância, barro de ouro, ervas do matagal, locas raízes, sortilégios espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que te trouxe, ramo de sombra e água com silêncio, ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre: vamos ali donde no espera nada
e falamos tudo o que está esperando.


Pablo Neruda
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As lentas nuvens fazem sono

As lentas nuvens fazem sono


As lentas nuvens fazem sono, O céu azul faz bom dormir. Bóio, num íntimo abandono, À tona de me não sentir.
E é suave, como um correr de água, O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa. Minha alma é aquilo que não tem.
Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo... E só em sono eu vou primeiro. E só em sonho eu vou seguindo.


Fernando Pessoa
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