Dedicatória

em sábado, 3 de novembro de 2018


Apomba d'aliança o voo espraia 
Na superfície azul do mar imenso, 
Rente... rente da espuma já desmaia 
Medindo a curva do horizonte extenso... 
Mas um disco se avista ao longe... A praia 
Rasga nitente o nevoeiro denso!... 
O pouso! ó monte! ó ramo de oliveira! 
Ninho amigo da pomba forasteira!... 
Assim, meu pobre livro as asas larga 
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno... 
O mar atira-lhe a saliva amarga, 
O céu lhe atira o temporal de inverno... 
O triste verga à tão pesada carga! 
Quem abre ao triste um coração paterno?... 
É tão bom ter por árvore—uns carinhos! 
É tão bom de uns afetos — fazer ninhos! 
Pobre órfão! Vagando nos espaços 
Embalde às solidões mandas um grito! 
Que importa? De uma cruz ao longe os braços 
Vejo abrirem-se ao mísero precito... 
Os túmulos dos teus dão-te regaços! 
Ama-te a sombra do salgueiro aflito... 
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste 
Traz-me no bico um ramo de... cipreste! 

Autor: Castro Alves

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