Quem dá aos pobres, empresta a Deus

em terça-feira, 18 de dezembro de 2018




Eu, Que a pobreza de meus pobres cantos 
Dei aos heróis—aos miseráveis grandes—, 
Eu, que sou cego, —mas só peço luzes... 
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes....
Canto nest'hora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão, 
O grande nada dos heróis, que dormem 
Do vasto pampa no funéreo chão...
Duas grandezas neste instante cruzam-se! 
Duas realezas hoje aqui se abraçam!... 
Uma—é um livro laureado em luzes...
Outra— uma espada, onde os lauréis se enlaçam. 
Nem cora o livro de ombrear coto sabre... 
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão... 
Quando em loureiros se biparte o gládio 
Do vasto pampa no funéreo chão. 
E foram grandes teus heróis, ó pátria, 
—Mulher fecunda, que não cria escravos —, 
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos: 
"Parti — soldados, mas voltei-me — bravos! 
E qual Moema desgrenhada, altiva, 
Eis tua prole, que se arroja então, 
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão. 
E esses Leandros do Helesponto novo 
Se resvalaram — foi no chão da história... 
Se tropeçaram — foi na eternidade... 
Se naufragaram—foi no mar da glória... 
E hoje o que resta dos heróis gigantes?... 
Aqui — os filhos que vos pedem pão... 
Além — a ossada, que branqueia a lua, 
Do vasto pampa no funéreo chão. 
Ai! quantas vezes a criança loura 
Seu pai procura pequenina e nua, 
E vai, brincando co'o vetusto sabre, 
Sentar-se à espera no portal da rua... 
Mísera mãe, sobre teu peito aquece 
Esta avezinha, que não tem mais pão!... 
Seu pai descansa — fulminado cedro — 
Do vasto pampa no funéreo chão. 
Mas, já que as águias lá no sul tombaram 
E os filhos d'águias o Poder esquece... 
"'E grande, é nobre, é gigantesco, é santo!... 
Lançai— a esmola, e colhereis—a prece!. 
Oh! dai a esmola... que do infante lindo 
Por entre os dedos da pequena mão, 
Ela transborda... e vai cair nas tumbas 
Do vasto pampa no funéreo chão. 
Há duas cousas neste mundo santas:
—O rir do infante,—o descansar do morto.. 
O berço —é a barca, que encalhou na vida, 
A cova —é a barca do sidéreo porto... 
E vós dissestes para o berço—Avante!— 
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão, 
Os ossos deixam, qual na praia as ancoras, 
Do vasto pampa no funéreo chão. 
É santo o laço, em qu'hoje aqui s'estreitam 
De heróicos troncos—os rebentos novos—! 
É que são gêmeos dos heróis os filhos, 
Inda que filhos de diversos povos! 
Sim! me parece que nest'hora augusta 
Os mortos saltam da feral mansão... 
E um "bravo!" altivo de além-mar partindo 
Rola do pampa no funéreo chão!... 

Castro Alves

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