CANTO ESPONJOSO

em quinta-feira, 27 de setembro de 2018



Bela
esta manhã sem carência de mito,

E mel sorvido sem blasfémia.

Bela

esta manhã ou outra possível,

esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.
Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.


Carlos Drummond de Andrade

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