MILONGA PARA UM SOLDADO - O JOGO DA VIDA

em sexta-feira, 28 de dezembro de 2018



O hei sonhado nesta casa,
entre paredes e portas,
Deus permite que os homens
sonhem coisas que são certas.
O hei sonhado mar afora,
em umas ilhas glaciárias,
que não digam os demais
o túmulo e os hospitais. 
Uma de tantas províncias, 
do interior foi sua terra, 
não convém que se saiba 
que morre gente na guerra. 
O sacaram do quartel, 
Puseram-lhe nas mãos 
as armas e o mandaram 
a morrer com seus irmãos. 
Ouviu as balas arengas 
dos vãos generais, 
viu o que nunca havia visto, 
a neve e as areias. 
Ouviu vivas, e ouviu morras 
ouviu o clamor da gente, 
ele só queria saber 
se era ou não era valente. 
O soube naquele momento 
em que lhe entrava a ferida, 
se disse não teve medo, 
quando o deixou a vida. 
Sua morte foi uma secreta vitória 
ninguém se admire que me dê inveja e pena 
o destino daquele homem. 
Ouviu as balas arengas 
dos vãos generais, 
viu o que nunca havia visto, 
a neve e as areias. 
Ouviu vivas, e ouviu morras 
ouviu o clamor da gente, 
ele só queria saber 
se era ou não era valente. 
O soube naquele momento 
em que lhe entrava a ferida, 
se disse não teve medo, 
quando o deixou a vida. 

Jorge Luis Borges

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