O HEAUTONTIMOROUMENOS

em terça-feira, 4 de setembro de 2018


Sem cólera te espancarei, 
Como o açougueiro abate a rês, 
Como Moisés à rocha fez! 
De tuas pálpebras farei, 
Para meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento. 
O meu desejo ébrio de alento 
Sobre o teu pranto irá flutuar 
Como um navio no mar alto, 
E em meu saciado coração 
Os teus soluços ressoarão 
Como um tambor que toca o assalto! 
Não sou acaso um falso acorde 
Nessa divina sinfonia, 
Graças à voraz Ironia 
Que me sacode e que me morde? 
Em minha voz ela é quem grita! 
E anda em meu sangue envenenado! 
Eu sou o espelho amaldiçoado 
Onde a megera se olha aflita. 
Eu sou a faca e o talho atroz! 
Eu sou o rosto e a bofetada! 
Eu sou a roda e a mão crispada, 
Eu sou a vítima e o algoz! 
Sou um vampiro a me esvair 
- Um desses tais abandonados 
Ao riso eterno condenados, 
E que não podem mais sorrir.

                                                     
                                                       Charles Baudelaire

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