REMORSO PÓSTUMO

em quarta-feira, 5 de setembro de 2018


Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,

Em teu negro e mamóreo mausoléu, e não

Tiveres por alcova e refúgio senão

Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,

Impedir de querer e arfar teu coração,
E teu pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
- Porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: "De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?"
- E o verme te roerá como um remorso lento.


Charles Baudelaire

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