A HORA DO CANSAÇO

em terça-feira, 28 de fevereiro de 2017



A hora do cansaço
As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade. 
Começam a esmaecer quando nos cansamos, 
e todos nós cansamos, por um outro itinerário, 
de aspirar a resina do eterno. 
Já não pretendemos que sejam imperecíveis. 
Restituímos cada ser e coisa à condição precária, 
rebaixamos o amor ao estado de utilidade. 
Do sonho de eterno fica esse gosto ocre 
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar. 

Carlos Drummond de Andrade

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