AMAR-AMARO

em domingo, 1 de outubro de 2017



Porque amou por que amou
se sabia
proibido passear sentimentos
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?
ah PORQUE AMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o,a) 
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou? 
se era para 
ou era por 
como se entretanto todavia 
toda via mas toda vida 
é indignação do achado e aguda espotejação 
da carne do conhecimento, ora veja 
permita cavalheir(o,a) 
amig(o,a) me releve 
este malestar 
cantarino escarninho piedoso 
este querer consolar sem muita convicção 
o que é inconsolável de ofício 
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima 
a vida também 
tudo também 
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás. 

Carlos Drummond de Andrade

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