BEBIDO O LUAR

em quarta-feira, 24 de outubro de 2018


Bebido o luar, ébrios de horizontes, 

Julgamos que viver era abraçar 

O rumor dos pinhais, o azul dos montes 
E todos os jardins verdes do mar. 
Mas solitários somos e passamos, 

Não são nossos os frutos nem as flores, 
O céu e o mar apagam-se exteriores 
E tornam-se os fantasmas que sonhamos. 
Por que jardins que nós não colheremos, 
Límpidos nas auroras a nascer, 
Por que o céu e o mar se não seremos 
Nunca os deuses capazes de os viver.


Sophia de Mello Breyner Andresen

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