DIANTE DAS FOTOS DE EVANDRO TEIXEIRA

em quarta-feira, 2 de agosto de 2017


A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo só a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.
É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras. 
Fotografia - é o codinome 
da mais aguda percepção 
que a nós mesmos nos vai mostrando 
e da evanescência de tudo, 
edifica uma penanência, 
cristal do tempo no papel. 
Das luas de rua no Rio 
em 68, que nos resta 
mais positivo, mais queimante 
do que as fotos acusadoras, 
tão vivas hoje como então, 
a lembrar como a exorcizar? 
Marcas de enchente e do despejo, 
o cadáver inseputável, 
o colchão atirado ao vento, 
a lodosa, podre favela, 
o mendigo de Nova York 
a moça em flor no Jóquei Clube, 
Garrincha e nureyev, dança 
de dois destinos, mães-de-santo 
na praia-templo de Ipanema, 
a dama estranha de Ouro Preto, 
a dor da América Latina, 
mitos não são, pois são fotos. 
Fotografia: arma de amor, 
de justiça e conhecimento, 
pelas sete partes do mundo 
a viajar, a surpreender 
a tormentosa vida do homem 
e a esperança a brotar das cinzas. 

Carlos Drummond de Andrade

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