NÃO QUERO SER O ÚLTIMO A COMER-TE

em terça-feira, 31 de outubro de 2017


Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.

Nem sopra a flama antiga nem beber-te

aplacaria sede que não arde
em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,

fome que não sofria padecer-te

assim pasto de tantos, e eu covarde
a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,
para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.


Carlos Drummond de Andrade

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