NAVIO NAUFRAGADO

em sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Vinha de um mundo

Sonoro, nítido e denso.

E agora o mar o guarda no seu fundo

Silencioso e suspenso.
É um esqueleto branco o capitão,

Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.


Sophia de Mello Breyner Andresen

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