O QUE ALÉCIO VÊ

em quarta-feira, 30 de agosto de 2017



A voz lhe disse ( uma secreta voz): 
- Vai, Alécio, ver. 
Vê e reflete o visto, e todos captem 
por seu olhar o sentimento das formas 
que é o sentimento primeiro - e último - da vida. 
E Alécio vai e vê 
o natural das coisas e das gentes,
o dia, em sua novidade não sabida,
a inaugurar-se todas as manhãs,
o cão, o parque, o traço da passagem
das pessoas na rua, o idílio 
jamais extinto sob as ideologias, 
a graça umbilical do nu feminino, 
conversas de café, imagens 
de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco 
para depositar-se numa folha 
sobre a pedra do cais 
ou para sorrir nas telas clássicas de museu 
que se sabem contempladas 
pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas, 
ou ainda 
para dispersar-se e concentrar-se 
no jogo eterno das crianças. 
Ai, as crianças... Para elas, 
há um mirante iluminado no olhar de Alécio 
e sua objetiva. 
(Mas a melhor objetiva não serão os olhos líricos de Alécio?) 
Tudo se resume numa fonte 
e nas três menininhas peladas que a contemplam, 
soberba, risonha, puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade, 
hino matinal à criação 
e a continuação do mundo em esperança. 

Carlos Drummond de Andrade

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