OFICINA IRRITADA

em segunda-feira, 8 de outubro de 2018


Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.
Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo, 
ao mesmo tempo saiba ser, não ser. 
Esse meu verbo antipático e impuro 
há de pungir, há de fazer sofrer, 
tendão de Vênus sob o pedicuro. 
Ninguém o lembrará: tiro no muro, 
cão mijando no caos, enquanto Arcturo, 
claro enigma, se deixa surpreender. 
Casamento do Céu e do Inferno 
No azul do céu metileno 
a lua irônica 
diurética 
é uma gravura de sala de jantar. 
Anjos da guarda em expedição noturna 
velam sonos púberes 
espantando mosquitos 
de cortinados e grinaldas. 
Pela escada em espiral 
diz-que tem virgens tresmalhadas, 
incorporadas à via-láctea, 
vaga-lumeando... 
Por uma frincha 
o diabo espreita com o olho torto. 

Carlos Drummond de Andrade

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