Aqui está-se sossegado

em sábado, 29 de agosto de 2020

Aqui está-se sossegado


Aqui está-se sossegado, Longe do mundo e da vida, Cheio de não ter passado, Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.
Tinha os gestos inocentes, Seus olhos riam no fundo. Mas invisíveis serpentes Faziam-a ser do mundo. Tinha os gestos inocentes.
Aqui tudo é paz e mar. Que longe a vista se perde Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde! Aqui tudo é paz e mar.

Sim, poderia ter sido... Mas vontade nem razão O mundo têm conduzido A prazer ou conclusão. Sim, poderia ter sido...
Agora não esqueço e sonho. Fecho os olhos, oiço o mar E de ouvi-lo bem, suponho Que veio azul a esverdear. Agora não esqueço e sonho.
Não foi propósito, não. Os seus gestos inocentes Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes. Não foi propósito, não.
Durmo, desperto e sozinho. Que tem sido a minha vida? Velas de inútil moinho — Um movimento sem lida... Durmo, desperto e sozinho.
Nada explica nem consola. Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois Nada explica nem consola.

Fernando Pessoa

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