Bem, hoje que estou só e posso ver

em sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Bem, hoje que estou só e posso ver


Bem, hoje que estou só e posso ver Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser, Quanto se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me Por não ter procedido bem.
Falhei a tudo, mas sem galhardias, Nada fui, nada ousei e nada fiz,

Nem colhi nas urtigas dos meus dias A flor de parecer feliz.
Mas fica sempre, porque o pobre é rico Em qualquer cousa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico. Escrevo-o para o lembrar bem.

Fernando Pessoa

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